A cada cinco compradores de imóveis financiados no Brasil, um atrasa o pagamento por mais de 90 dias, segundo levantamento da Serasa Experian de maio de 2026. Esse número, que já vinha subindo, ganhou novo impulso após a decisão do Copom de manter a Selic em 14, 25% ao ano. O encarecimento do crédito imobiliário torna o sonho da casa própria um desafio para milhares de famílias e, para os bancos, aumenta o estoque de imóveis retomados que vão a leilão.
Como isso chega ao leilão
A cadeia começa com o mutuário que não consegue pagar as prestações do financiamento imobiliário. A instituição credora, que pode ser a Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Itaú ou Bradesco, notifica o devedor e, após o vencimento de três parcelas consecutivas, inicia o processo de consolidação da propriedade nos contratos de alienação fiduciária. Esse rito, previsto no artigo 26 da Lei 9.514/1997, transfere a posse direta do bem ao banco. Em seguida, o imóvel é levado a leilão extrajudicial ou, se houver ação judicial, a leilão judicial (pregão eletrônico). A desocupação de imóvel arrematado geralmente ocorre após a expedição do auto de imissão na posse, que deve ser cumprido pelo oficial de justiça. Para o arrematante, é essencial analisar a matrícula do imóvel antes do lance, pois nela constam ônus, dívidas e eventuais averbações.
A dimensão do problema
Segundo o Banco Central, a inadimplência no crédito imobiliário do SBPE atingiu 2, 8% em maio de 2026, o maior patamar desde 2017. O volume de imóveis retomados pelas instituições financeiras cresceu 23% no primeiro semestre em relação ao mesmo período de 2025. Esse movimento abastece diretamente os leilões, que se tornam uma alternativa para os bancos recuperarem parte do crédito.
Imóveis urbanos versus rurais
A maioria das retomadas ocorre em áreas urbanas, especialmente nas regiões metropolitanas. Imóveis rurais representam cerca de 12% do total e passam por um rito diferenciado, com prazos mais longos e exigência de registro no cartório de imóveis competente.
Contexto jurídico
A recente Lei 14.711/2023 (Marco das Garantias) trouxe mudanças importantes para acelerar a execução de garantias, inclusive imobiliárias. Ela alterou o CPC (arts. 879 a 903) e a Lei 9.514/1997, simplificando a expropriação. Antes da lei, a consolidação da propriedade demandava até dois anos; hoje, pode ser concluída em menos de seis meses após a constituição em mora.
Antes e depois da Lei 14.711
Antes de 2023, o devedor tinha mais oportunidades de purgar a mora. Com a nova lei, a realização do leilão extrajudicial se tornou mais rápida. O STJ, em julgados recentes (REsp 1.958.494), firmou entendimento de que a desocupação de imóvel arrematado pode ser feita independentemente de ação possessória autônoma, desde que respeitado o contraditório mínimo.
Recorte regional: Rio Grande do Sul
O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) registrou um aumento de 35% nos leilões judiciais de imóveis em 2025 em comparação com 2024, segundo dados da Corregedoria-Geral da Justiça. Porto Alegre concentra quase um terço desses pregões, com destaque para as comarcas de São Leopoldo, Caxias do Sul e Passo Fundo. A capital gaúcha, que sofreu com enchentes em 2024, viu muitos imóveis serem retomados por atraso no financiamento, especialmente em bairros como Sarandi e Navegantes. Além disso, o mercado de leilões de veículos também cresceu, mas os imóveis seguem como principal ativo.
Onde encontrar esses bens
Para o investidor que busca oportunidades em leilões, o LeiloAI reúne em um só lugar mais de 60 fontes oficiais, tribunais, bancos e leiloeiros, com atualização em tempo real. Ferramentas como a Calculadora de Arrematacao ajudam a simular custos totais (ITBI, comissão, registro). O Radar Judicial permite monitorar novos leilões por região e tipo de bem. Antes de dar o lance, consulte o Guia Definitivo de Leilao para entender cada etapa do processo, do edital à imissão na posse. E não se esqueça de verificar a matricula do imovel e o status de ocupação. Cadastre-se gratuitamente para receber alertas personalizados: criar conta gratuita.
Fechamento
A combinação de Selic elevada e inadimplência crescente tende a aumentar a oferta de imóveis em leilão nos próximos meses, especialmente no Rio Grande do Sul. O investidor que se preparar com informações sólidas, análise de editais, verificação de ônus e entendimento do rito de consolidação da propriedade, poderá encontrar boas oportunidades. Mas lembre-se: leilão exige diligência, não impulso.